terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Mais uma vez... Natal!



Dia sem sol. Já de manhãzinha, resolvera armar a velha árvore de Natal. Puxou de cima do guarda-roupa uma grande caixa amarela, abriu-a cuidadosamente e retirou de dentro uma bela árvore verde. Alinhou os seus galhos, um a um, e vagarosamente foi desembrulhado as bolas coloridas, um pequeno papai-noel, a ponteira com sua estrela prateada, os anjinhos...
Então, num leve estremecimento, com uma sensação, misto de tristeza e saudade, pensou: "dezenove anos! Jamais vou esquecê-lo, jamais!..." E, lembrando do filho, tentava computar e ordenar os dados que jorravam aos borbotões da célere caixa de seus pensamentos: "morte, vida, festa, vida, morte, festa... É meu querido Ricardinho, após esse tempo todo, fico a imaginar meu querido Ricardinho, após esse tempo todo, fico a imaginar como serias agora: um jovem louro e alto com belos olhos esverdeados? Calmo, estudioso ou... quem sabe? Alegre, agitado e não querendo nada com os livros. A música clássica seria a tua predileta ou seria a popular?
A mamãe fica fazendo estas interrogações mas... bem sabe que jamais terá as respostas. Ela viu apenas o apagar das velinhas dos teus dois aninhos e, depois, mais nada!... Somente um ar vazio do teu calor e cheio de tudo aquilo que nunca irás experimentar. A mamãe nunca conseguirá te ver com vinte anos! Mas terá  sempre aquele menininho lindo que foste. Não vais crescer nunca, em compensação: não experimentarás prantos amargurados, não saberás das injustiças que se cometem a todo momento e... nem terás que andar por aí à procura de emprego na luta pela vida. Não, nada disso! Apenas, permanecerás presente no coração da mamãe que irá te acalentar cantando as mais doces canções de ninar.
Dezenove anos! Ainda hoje continuo a me perguntar, nos momentos de folga (por isso trabalho tanto), no silêncio das noites maldormidas o "porquê" de tudo.
Tantos sonhos e esperanças! Que coisas tão lindas desejei para o teu futuro! Antecipei, com incontido prazer, os teus gestos, teus sorrisos e até as palavras de amor que um dia deverias dizer à primeira namorada. E agora, meu filho? Onde o sonho a esperança, a palavra de amor não pronunciada, o gesto, o riso, o abraço, onde? ...
Era tão cedo ainda, filho, para apagar a luz dos teus olhinhos! Cedo demais para calar a tua voz, tão doce aos meus ouvidos... Muito cedo para cessar o movimento do teu corpo... Cedíssimo para fazeres uma viagem tão longa sem a companhia da mamãe.
Mas, no entanto, fostes!... Por quê? Talvez pelo gostinho de desobedecer aos pais que os filhos sentem. Que motivo tão imperioso causou a tua partida daquele modo, tão derrepente?...
Tu sabias, se sabias!... Mamãe havia armado a árvore de Natal, preparado os presentes, a roupa nova; tudo antes, para passarmos a Noite de Natal com a vovó e vovô, lembras-te? Saímos na madrugadinha do dia vinte e quatro. Fizemos uma viagem muito agradável, respirando o arzinho puro da Serra da Mantiqueira. E, então, surges com aquela febrezinha enjoada.
-Coisa à toa (Disse-me o médico).
- Criança é assim mesmo! Falavam, com ares de sabedoria, os mais velhos.
E a mamãe sofria e se torturava junto contigo!
Depois... O golpe de misericórdia, desfechado por mãos...
(prefiro que se conservem anônimas). Sabemos que há coisas para as quais não encontramos respostas, talvez fiquem vagando pelo mundo abstrato das cogitações. Só o "fato" é concreto, doído para quem sofre as suas consequências e, para mamãe foi assim.
O resultado não se fez esperar: então, partes sozinho para a viagem sem volta! Porém, filho continuo achando que tudo aconteceu cedo demais! Poderias esperar pela volta ao nosso lar, e não usar como aeroporto para o teu voo transcendental um rincão das Alterosas.
Tão gostosos eram os dias na casa da vovó! A comidinha cheirosa do fogão de lenha, os doces em calda, os biscoitos de polvilho, as rabanadas, as roscas "cheinhas de passas"... e o melhor: as histórias do tempo antigo que o vovô contava toda as noites.
... E os passeios nas manhãs de sol, sob as árvores perfiladas ao longo da estradinha de chão? Ficávamos sempre tão surpresos com a luminosidade do ar, com o zumbido dos insetos sobre as flores e com o canto dos pássaros que enchia o espaço. E toda aquela luz parecia trazer a alegria de viver e o desejo de ser feliz.
Poderias ter esperado um pouco mais! Para as brincadeiras no parque, pela escola, o jogo de futebol, o piquenique, o amor...
Um pouquinho mais poderias esperar, filho! Ter voltado ao menos para brincar com o CARNEIRINHO DE PELÚCIA que pendia da nossa árvore (tão lindo, com seu guizo prateado preso ao pescoço por uma fita de seda azul!) e... que a cada sopro de brisa chamava por ti."
- Dona Matilde!... Parou o carro aqui em frente... Acho que os netos da senhora chegaram...
- O que foi? Ah! Sim, Renata, Já vou...
Prendeu a respiração, por instante; talvez assim, o coração doesse menos. E... na incontrolável caixa de seus pensamentos mais um tomou forma para soar forte ao seu ouvido: "é... apesar de tudo, não conheço nada melhor do que viver para continuar amando, sonhando, sofrendo, lutando, buscando..."
Deu uma última olhada par a árvore recém-montada e com um vago sorriso foi ao encontro de Gabriel e Sofia, seus netos queridos. Abrindo a porta, já com o rosto iluminado de felicidade, percebeu que a brisa, vindo de fora, fez vibrar, uma vez mais, os verdes galhos da sua velha Árvore de Natal.

Texto de Matilde Diniz Lacerda
Do livro: ANTOLOGIA GREBALISTA - Grêmio Barramansense de Letras

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