segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Natal em contos


Boneca de Papel
Conceição Fenille Molinaro
Thereza sorriu toda contente quando tomou nas mãos sua mais nova aquisição: uma boneca toda feita de papel.
Não era uma boneca comum, pois carregava em si todo um ano de esforço e dedicação que a sobrecarregara de obrigações e compromissos, para que pudesse conquistar aquele cobiçado objeto. Por isso ela o apertava junto ao peito e afagava com muito carinho.
O ano não havia sido fácil. As muitas atividades que tinha de exercer, para poder em casa tomava-lhe muito tempo. Por isso também não podia à escola, tendo de se contentar em aprender as primeiras letras com o padre, durante as aulas de catequese. E isso não era muito fácil, porque dobravam suas obrigações. Theresa tinha que decorar as palavras do padre e depois aprender as letras que formavam as palavras.
Decorar não era problema. Tinha boa cabeça, como sua mãe, às vezes, lhe dizia. O problema era o raio das letras!
Que confusão elas criavam em sua cabeça! Como fazer para aprender as palavras da Ave Maria escritas em latim? Repetir ela conseguia, mas imitar a letra do catequista...
Theresa, no entanto, não colocava tanta dificuldade. Sabia que tinha que passar por isso, se quisesse ganhar um presente de final de ano. Todo domingo, após a missa das 10 horas, ela ia para o salão paroquial ouvir as tais aulas de catecismo, pois só assim ganharia um ponto a mais em sua carteirinha de freqüência. No final do ano, era só contar os pontos e escolher o presente. Se fosse uma das primeiras a entrar na sala onde estavam os objetos, poderia escolher o que bem desejasse e, assim, ter um Natal bem bonito.
Ela sabia que não poderia contar com a ajuda dos pais, para ter algum brinquedo. Todos labutavam muito, mas ganhavam muito pouco e quase sempre o dinheiro não dava para aquisição de brinquedos. O máximo que conseguia era uma boa ceia natalina.
Aquele ano, no entanto, seria diferente. Havia de conseguir um presente bem bonito. Seria a coroação de um plano bem bolado. Mataria dois coelhos  com apenas uma cajadada: faria a primeira comunhão e conquistaria o presente cobiçado.
O fim do ano finalmente chegou. A cerimônia na qual recebeu a Eucaristia pela primeira vez foi fabulosa. Ela vestiu um belo vestido branco, confeccionado especialmente para a ocasião. Na mão direita, carregou uma vela que seria acesa, durante a celebração. Foi tudo maravilhoso, inclusive o almoço especial que sai mãe havia preparado para comemorar aquela data!
No domingo seguinte, acordou bem cedo. Notou que o tempo estava nublado, mas não quis levar consigo a sombrinha. Sua vontade de chegar logo ao salão paroquial era enorme. Pela pontuação que conseguira, iria ser uma das primeiras a entrar na sala dos presentes. E assim aconteceu, e tão logo adentrou, correu imediatamente para a prateleira onde estava a boneca que tanto desejara. Tomou-a no colo, conferiu os pontos necessários e saiu toda feliz. Não quis falar com mais ninguém além de sua própria boneca. Correu toda contente de volta para casa, sem se dar conta que logo uma chuva torrencial iria desabar sobre si. Quando se deu conta, já era tarde demais, pois se encontrava no meio do caminho, num lugar totalmente descampado, sem chance alguma de evitar que a chuva a molhasse e à sua desejada boneca.
Vencida pela desesperança, Theresa ergueu os olhos em direção ao céu, enquanto a chuva lavava-lhe o rosto entristecido. Depois, voltou o olhar para a boneca que ia, aos poucos, se desmanchando em suas mãos da menina. Nesse momento, duas lágrimas lhe percorreram o rosto e se confundiram com as águas da chuva que carregavam, para bem longe, o sonho de um feliz Natal.

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